
Sentada ouvindo as últimas gotas da chuva caírem feito um conta-gotas na poça d'água, eu penso em como pode ser surpreendente cada dia que, engatilhado, segue o outro. Memórias de pouco tempo atrás tão marcantes e se narram hoje tão iguais ao mesmo tempo que tão diferentes. Diferentes no sentir... Sentir no peito, de toque, de cheiros. Sempre disse que por trás da cara de mau de um certo homem, lá no fundo dos olhos dele, tinha uma ternura que eu nunca vi igual. Uma carência de romance, um desejo de cuidado, quase um vaso de terra nutrida, mas sem flor pra zelar. Por trás de um trejeito arisco há uma suavidade no tocar que entorpece. Uma mistura de dengo, vergonha e sensualidade. Por trás daquele cartaz discreto existe um abraço caloroso, um beijo transportador, dedos delicados, um despir de roupas meigo de fazer amor... Um trato especial, uma atenção paternal, uma vontade de se entregar ao desconhecido que faz até quem não é de reza ter fé no que não se pode enchergar.
Dedicado ao meu bobo.



